O solidário que não diz o que fez!

Instituições buscam chamar atenção para si com os donativos de toda uma comunidade regional em volta: triste exemplo.

Caríssimo e baratíssimo, a tragédia no Rio Grande do Sul, desencadeada por intensas chuvas que começaram na madrugada de 3 de maio, resultou em um cenário desolador: milhares de desalojados, centenas de mortos e outra centena de desaparecidos. Em meio a esse cenário, a solidariedade emergiu como um ponto luminoso, mostrando a capacidade humana de compaixão e apoio mútuo. Contudo, é justamente essa expressão genuína de empatia que motiva nossa crítica às instituições que parecem buscar mais visibilidade do que realmente oferecer ajuda desinteressada.

O comportamento de algumas organizações e entidades em momentos de crise revela uma faceta preocupante de nossa sociedade: a instrumentalização da caridade. Instituições como o Criciúma E.C. e a Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), apesar de contribuírem para a gestão dos donativos, acabam recebendo uma atenção desproporcional nos meios de comunicação, o que sugere uma disparidade entre a real contribuição e a imagem projetada. Da mesma forma, as prefeituras, os governos e a União que mobilizam recursos públicos para as buscas e recuperação, são financiadas pelos impostos da população, mas ainda assim, buscam capitalizar politicamente sobre essas ações.

De novo, não que elas não fizeram nada, não que tenha sido um gesto genuíno e espontâneo, mas teve cara de ostentação da bondade, moeda que a esquerda tanto usa para obter vantagens típicas dos tempos atuais. Como este ditado parafraseado para esta circunstância: “Você não precisa ser bom, mas deve parecer ser bom.”

O Criciúma E.C. realizou ações solidárias, mas o fez recebendo os donativos de outros e contando com a voluntariedade de muitos que foram lá para fazer triagens e carregar caminhões. Ao final, parece que foi o clube, e não as pessoas da cidade, que demonstraram generosidade. A Unesc também participou, mobilizando pessoas para coletar donativos. Eles também contribuíram, mas a propaganda enfatizou apenas o nome da Unesc e de seus líderes.

Este cenário levanta questionamentos sobre a autenticidade e a intenção por trás das ações solidárias. Na era da imagem e da mídia social, parece que o valor está mais no parecer solidário do que no ato de ser verdadeiramente altruísta. A frase bíblica “Que não saiba a mão esquerda o que faz a direita” ressoa aqui como um chamado à reflexão sobre nossas motivações: estamos ajudando por compaixão genuína ou pela aparência de bondade? Se as pessoas que compareceram com donativos ou com força de trabalho não aparecem, por que as instituições têm que fazer tanto alvoroço para dar crédito a si mesmas?

É fundamental repensar a maneira como a solidariedade é praticada e percebida em nossa sociedade. A verdadeira bondade não precisa de anúncios ou reconhecimento público. Ela deve ser um ato voluntário e sincero, que não busca recompensas além da melhoria do bem-estar daqueles que estão sofrendo. Ao valorizar mais quem parece solidário do que quem realmente pratica o bem, corremos o risco de transformar a empatia em uma moeda de troca, onde a aparência de virtude suplanta sua essência.

É hora de cultivar uma cultura de solidariedade mais autêntica, onde as ações falem mais alto que as palavras e onde o reconhecimento público não seja o objetivo final. O que vimos até agora é o contrário disso.


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