Apesar do avanço político dos anarcocapitalistas com a eleição de Milei, o filósofo criticou as políticas do mandatário argentino e a democracia, propondo propriedade privada como base da verdadeira autonomia individual.
O filósofo Hans-Hermann Hoppe, um defensor do anarcocapitalismo, abordou recentemente ao canal ADN Opinión, do México, a importância da liberdade em uma época em que muitos priorizam a igualdade. Segundo Hoppe, a verdadeira liberdade está intrinsecamente ligada à propriedade privada, pois é ela que permite aos indivíduos agirem sem restrições impostas por outros. “Para que possamos agir de forma independente, precisamos de propriedade privada,” afirmou. A propriedade privada, argumenta Hoppe, dá às pessoas a capacidade de perseguirem seus objetivos individuais sem a necessidade de permissão de terceiros. “A liberdade nada mais é do que a habilidade de usar sua própria propriedade de acordo com seus desejos e vontades, sem interferir na propriedade física de outras pessoas,” pontuou.
Hoppe, que também é um crítico fervoroso da democracia, sustenta que esse sistema pode, em algumas situações, ser um empecilho para a liberdade individual e para os direitos de propriedade privada. “A definição tradicional de democracia é a regra da maioria. Isso introduz uma forma de comunismo leve, onde não se pode mais determinar o que fazer com a própria propriedade, pois há uma instituição que pode interferir,” explicou. Ele ilustra essa posição com um exemplo simples: se, em uma sala com 10 ou 12 pessoas, seis decidissem que o conteúdo da carteira de Hoppe deveria ser distribuído igualmente entre todos, essa decisão, que representaria a “democracia moderna”, ignoraria o direito de propriedade individual. Segundo Hoppe, nesse cenário, a verdadeira democracia seria permitir que ele se retirasse do grupo e mantivesse sua propriedade sem interferência externa.
O conceito de anarcocapitalismo defendido por Hoppe é, essencialmente, uma sociedade onde vigora apenas o direito privado, sem qualquer intervenção estatal. Para ele, “o anarcocapitalismo é nada mais do que uma sociedade regida por leis privadas, onde todas as leis se aplicam a todos de forma igualitária, e não existe propriedade pública ou direito público.” No sistema proposto, a propriedade pública e as leis públicas, definidas pela maioria ou pelo estado, são vistas como violações da liberdade individual.
Hoppe também explora como leis poderiam existir em uma sociedade sem estado, afirmando que em comunidades menores, as pessoas conseguem resolver suas próprias disputas sem a necessidade de um policial ou de uma instituição pública. “Em qualquer vila pequena, podemos ver como as pessoas conseguem arranjar suas próprias questões,” comenta. Ele acredita que autoridades naturais, pessoas de prestígio e cuja palavra tem peso na comunidade, poderiam atuar como mediadores imparciais em conflitos. Esse tipo de arranjo seria preferível, segundo Hoppe, pois no modelo atual, quem decide se uma lei é justa ou não é um funcionário do estado, o que, em sua visão, compromete a imparcialidade.
Para Hoppe, uma das grandes falhas do sistema estatal é que ele permite que o próprio estado decida a legalidade de suas leis. Ele exemplifica essa crítica com a questão tributária: se alguém fosse até a Suprema Corte argumentando que nunca concordou em pagar impostos, a decisão sobre essa disputa seria feita por um funcionário estatal, tornando o resultado previsível, já que, muito provavelmente, a queixa sequer seria ouvida. Essa relação de poder, segundo Hoppe, impede uma resolução de conflitos justa e neutra.
No entanto, a ideia de uma sociedade sem estado não é, segundo ele, uma utopia. “Se olharmos ao nosso redor no dia a dia, vivemos sem o estado na maioria de nossas atividades,” afirmou, acrescentando que, na maioria das vezes, as pessoas não têm contato direto com o estado em suas vidas cotidianas. Nos pequenos vilarejos, onde as pessoas resolvem suas questões sem a intervenção de um oficial público, Hoppe vê uma prova de que a ordem e a organização podem existir sem a necessidade de uma entidade estatal.
Ao ser questionado sobre Javier Milei, o atual presidente da Argentina que se autodenomina anarcocapitalista, Hoppe expressou críticas quanto às políticas adotadas por Milei. Embora reconheça que a situação na Argentina tenha melhorado desde que Milei assumiu o cargo, Hoppe observa que ainda há um longo caminho a percorrer. “Admito que ele fez algumas coisas boas, mas também reconheço que ele não conseguiu realizar tudo o que queria por precisar de maiorias parlamentares,” explicou Hoppe. Contudo, o que pareceu mais incomodar o filósofo foi o fato de Milei ter adotado posturas que, para ele, contradizem os princípios do anarcocapitalismo.
Entre as críticas, Hoppe aponta que Milei, apesar de reduzir alguns impostos, também aumentou outros, o que, para Hoppe, contraria a essência do anarcocapitalismo, onde a taxação é vista como uma forma de roubo, já que é imposta sem o consentimento das pessoas e é compulsória, com penalidades para quem não paga. Além disso, Milei prometeu abolir o Banco Central argentino, uma instituição que, segundo Hoppe, é essencial para o poder estatal, pois permite a criação de dinheiro do nada, algo crucial para financiar políticas públicas e, em especial, guerras. “As guerras se tornaram muito mais fáceis de serem realizadas com bancos centrais. Sem eles, os estados teriam que depender apenas de impostos, o que tornaria a guerra financeiramente inviável,” analisou Hoppe.
Apesar de Milei ter declarado a intenção de fechar o Banco Central, Hoppe critica o fato de que ele ainda não tenha feito tentativas concretas para realizar essa promessa. Para Hoppe, a eliminação do Banco Central seria o passo mais eficaz para controlar a inflação, pois esta é, segundo ele, “um fenômeno exclusivamente monetário, causado pela criação de dinheiro.”
No entanto, a crítica mais contundente de Hoppe é direcionada à política externa de Milei. Hoppe explica que, para um verdadeiro anarcocapitalista, o ideal seria manter-se fora dos assuntos de outros países e concentrar-se apenas na defesa de seu próprio território. Para Hoppe, Milei errou ao declarar apoio explícito ao governo dos Estados Unidos, que, segundo ele, é o maior “imperialista” e “promotor de guerras” da atualidade. “Ele poderia simplesmente ter dito que não comentaria sobre as políticas de outros países,” sugere Hoppe, destacando que uma posição neutra seria mais coerente com os princípios libertários.
Hoppe encerrou a conversa reafirmando seu compromisso com a visão de uma sociedade livre do estado e governada apenas pelo direito privado, onde a propriedade privada e a liberdade individual são as bases fundamentais da convivência. Para Hoppe, uma sociedade sem estado não é apenas uma possibilidade teórica, mas uma realidade prática que pode ser alcançada se os indivíduos estiverem dispostos a viver com base em leis privadas e na resolução de conflitos de maneira descentralizada e imparcial.


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