A palavra “Neoliberalismo” tornou-se um insulto político no Brasil. Usada para criticar governos, economias e até indivíduos, ela carrega uma carga de desprezo associada a supostos males como desigualdade, exploração e opressão. No entanto, conforme aponta uma análise crítica fundamentada em pensadores como Ludwig von Mises e Friedrich Hayek, o Neoliberalismo não só não tem relação com o Liberalismo clássico, como é, na verdade, uma estratégia sofisticada de Socialismo. Essa visão desafia o senso comum e revela um paradoxo: o que se chama de “Neoliberalismo” é, na prática, um mecanismo de controle estatal disfarçado de liberdade econômica.
A confusão entre Liberalismo e Neoliberalismo: dois projetos opostos
O primeiro equívoco a ser desfeito é a ideia de que Neoliberalismo seria uma versão atualizada ou radicalizada do Liberalismo. Para economistas como Mises e Hayek, a liberdade econômica é um princípio inegociável. A “ação humana”, termo cunhado por Mises, refere-se à capacidade dos indivíduos de resolverem seus problemas materiais por meio da criatividade, do empreendedorismo e da troca voluntária, sem interferência estatal. O Estado, nessa visão, tem papel limitado: garantir segurança, justiça e o cumprimento de contratos.
Já o Neoliberalismo, segundo a perspectiva apresentada, opera em sentido inverso. Enquanto o Liberalismo defende a redução do Estado na economia, o Neoliberalismo utiliza a retórica da liberdade para expandir o controle governamental. A privatização de empresas estatais, por exemplo, longe de significar menos Estado, torna-se uma ferramenta para transferir a geração de riqueza ao setor privado — que, por sua vez, é sobrecarregado com tributos para financiar estruturas estatais cada vez mais intrusivas.
Privatizações e impostos: o Socialismo mascarado de liberdade
O caso da Inglaterra é emblemático. Nas décadas de 1970 e 1980, o país enfrentava uma crise econômica decorrente de sindicalismos excessivos e políticas socialistas. A solução encontrada, sob o rótulo neoliberal, foi privatizar estatais e reduzir o poder de sindicatos. No entanto, isso não significou um afastamento do Socialismo, mas uma adaptação dele. O Estado deixou de gerir empresas diretamente, mas passou a extrair mais recursos do setor privado por meio de impostos crescentes.
Ou seja, mesmo quando o Estado não controla empresas, ele captura a riqueza gerada pela iniciativa privada com uma carga tributária escorchante, que já passou dos 30% no Brasil. Ao se desfazer das estatais, coisa que a esquerda-marxista considera um crime lesa-pátria, o governo de Fernando Henrique Cardoso (anos 90) foi chamado de neoliberal. Qualificativo apropriado no sentido que damos ao termo neste artigo, pois FHC é um socialista-fabiano e, entendendo que o Estado socialista tem defeitos demais, usou a estratégia neoliberal da Inglaterra da década passada para fazer as estatais funcionarem de verdade e darem dinheiro para o seu governo. Dinheiro que, dizem, alimentou também sua reeleição.
Mas isso então não reduziu realmente o Estado, mas o fortaleceu. Empresários, nesse cenário, tornam-se “agentes de captação” do governo: produzem riqueza, mas são obrigados a repassar boa parte dela ao Estado, que a utiliza para financiar políticas de controle social.
Neoliberalismo como controle social: quando o Estado sequestra a economia
O cerne da crítica que se pode fazer ao Neoliberalismo reside na ideia de que ele não é um projeto econômico, mas um instrumento de poder. Ao delegar a produção de bens e serviços ao setor privado, o Estado socialista moderno libera-se de uma função complexa (gerir empresas) e concentra-se no que realmente interessa: o controle da sociedade. Com os recursos obtidos via impostos, cria-se uma estrutura burocrática gigantesca, capaz de regular desde o horário de funcionamento de bares até o vocabulário permitido em interações sociais.
O governo Lula, por exemplo, desde seus primeiros mandatos, é um exemplo dessa dinâmica. Apesar de associado à esquerda, sua política econômica não rompe com o Neoliberalismo — aprofunda-o. Ao aumentar tributos e ampliar o aparato regulatório, o Estado brasileiro não está abandonando o Socialismo, mas refinando-o. A ideia de “justiça social” serve de justificativa para intervenções que limitam liberdades individuais e consolidam o poder estatal.
Armadilha linguística: por que chamam isso de Neoliberalismo?
A confusão entre os termos “Liberalismo” e “Neoliberalismo” não é acidental. Para a análise em questão, trata-se de uma estratégia de manipulação semântica. A esquerda marxista, por exemplo, associa a prática de vender estatais como um suposto Liberalismo capitalista, e criou então seu (na época) mais novo inimigo imaginário (o “Neoliberalismo”). Já o Socialismo Fabiano o faz para desviar a atenção do verdadeiro estratagema: a expansão do Estado. Tanto deu certo que o Estado da era Militar, Sarney ou Collor-Itamar era uma ninharia perto do que temos hoje… E com privatizações.
Enquanto os liberais clássicos e libertários defendem a autonomia individual e a responsabilidade pessoal, o Neoliberalismo é, na verdade, uma “personagem traiçoeira”. O “quinta-coluna” nesta história. Sob o discurso de eficiência e modernidade, esconde-se um sistema que converte o sucesso econômico privado em combustível para máquinas estatais autoritárias. Empresários que celebram parcerias com o governo, por exemplo, são vistos como “trouxas” que não percebem estar financiando sua própria subjugação. As associações empresariais, mesmo, hoje servem apenas para juntar burocratas privados para fazer lobby com os burocratas do governo. São as intermediárias do “Capitalismo de compadrio” de que falava Roberto Campos em “A Lanterna na Popa” (1994), ele também chamou em outro momento de “Capitalismo de laços”, no qual empresários e políticos estabelecem relações privilegiadas para obter vantagens econômicas, em detrimento da livre concorrência e do mercado. Sim, estou falando de Fiesp, Fiesc, e as associações municipais todas. São tão socialistas quanto os sindicatos dos trabalhadores. Só fingem não ser, por serem a elite que se beneficia com o compadrio.
O Socialismo que aprendeu a sobreviver
O Neoliberalismo não é a negação do Socialismo, mas sua evolução. Ao abandonar a gestão direta de empresas (algo que o Socialismo tradicional falhou em fazer com eficiência), o Estado moderno adotou um modelo híbrido. Permite que o setor privado gere riqueza, mas confisca parte dela para sustentar um projeto de poder que regula a vida em seus mínimos detalhes.
Nesse sentido, o Neoliberalismo é, sim, uma forma de Socialismo — mas um Socialismo pragmático, que aprendeu a não sufocar totalmente a economia para não perder sua fonte de recursos. O resultado é um sistema no qual a liberdade econômica existe apenas na superfície, enquanto o Estado cresce em silêncio, alimentado por impostos e apoiado por uma narrativa que confunde deliberadamente Liberalismo, e agora conservadorismo, com autoritarismo disfarçado.
Nesse jogo, quem paga a conta é sempre o mesmo: o cidadão, iludido pela promessa de que alguém, em algum lugar do governo, sabe melhor do que ele como viver sua vida.
Este artigo tem como norte os ensinamentos do economista e escritor brasileiro José Monir Nasser (1957-2013).


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