Há 50 anos, Reagan já alertava sobre problemas que o Brasil ainda ignora

Há 50 anos, em entrevista a Johnny Carson, Ronald Reagan já alertava sobre complexidade tributária, desperdício público e burocracia excessiva. Questões ainda ignoradas no Brasil atual foram discutidas pelo ex-presidente dos EUA, antecipando debates essenciais sobre reforma tributária, responsabilidade fiscal e necessidade de maior envolvimento cívico.

Há cinco décadas, em uma entrevista concedida ao famoso apresentador Johnny Carson no programa norte-americano The Tonight Show Starring Johnny Carson, o ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan já abordava questões que ainda hoje são ignoradas ou subestimadas por políticos brasileiros. Reagan, que governou os EUA na década de 1980, destacou com clareza problemas como a complexidade tributária, o peso da burocracia e o desperdício de dinheiro público — temas que seguem muito presentes no cenário atual brasileiro.

Um dos pontos mais fortes da entrevista foi a crítica à complexidade do sistema tributário. Reagan afirmou de maneira categórica: “Vivemos no único país do mundo onde é preciso mais inteligência para calcular o imposto de renda do que para ganhar o dinheiro”. Essa ironia ácida destacava já na época como os cidadãos comuns estavam reféns de sistemas tributários indecifráveis e burocráticos—algo perfeitamente aplicável à situação do contribuinte brasileiro atual, que frequentemente precisa recorrer a especialistas para cumprir suas obrigações fiscais.

Ronald Reagan Interview on The Tonight Show Starring Johnny Carson – 01/03/1975 – Part 1

O ex-presidente dos EUA alertou também para a questão dos impostos ocultos, embutidos nos preços de produtos e serviços. Reagan explicou claramente como essa dinâmica enganava o cidadão médio: “Quando um político diz ‘vamos proteger o pequeno contribuinte, vamos taxar as empresas!’, todos comemoram. Mas ninguém percebe que cada imposto aplicado sobre empresas acaba repassado diretamente ao consumidor final. Apenas no vestuário que usamos diariamente existem 116 impostos ocultos”. Esse comentário de Reagan é surpreendentemente atual no contexto brasileiro, onde consumidores continuam arcando com impostos indiretos altos sem terem plena consciência disso.

Reagan criticou também a maneira equivocada como políticos abordavam as chamadas “brechas fiscais”, explicando que a maioria dessas supostas brechas eram, na verdade, deduções essenciais para que famílias pudessem pagar seus compromissos financeiros básicos, como juros sobre financiamentos imobiliários, veículos e impostos sobre imóveis. “Sem essas deduções, muitos americanos simplesmente não conseguiriam pagar seus impostos anuais”, explicou Reagan, antecipando discussões que sequer se pensou no Brasil atual. Discussões estas que ainda giram na aplicabilidade da reforma tributária que mais piorou que simplificou a arrecadação.

A defesa de Reagan por uma reforma tributária simplificada é especialmente relevante hoje. “Precisamos de um sistema tributário tão simples que qualquer cidadão entenda exatamente quanto paga, sem precisar contratar um advogado para decifrar os valores”, disse Reagan há mais de quarenta anos. Veja como somos atrasados no Brasil.

Outro ponto mencionado foi o crescimento descontrolado da burocracia governamental. Reagan alertou que o sistema público dos EUA, à época, já contava com 14,5 milhões de funcionários, formando um bloco eleitoral tão forte que frequentemente definia políticas mais que o Congresso eleito pelo povo. Essa realidade burocrática excessiva, alertada por Reagan há décadas, também é perceptível hoje no Brasil, onde servidores públicos frequentemente influenciam políticas públicas decisivas através de sua força política e institucional.

Ainda sobre gastos públicos desnecessários, Reagan mencionou com sarcasmo um estudo governamental que custou 249 mil dólares e concluiu o óbvio: “Os jovens são mais felizes que os idosos, os ricos são mais felizes que os pobres e os saudáveis mais felizes que os doentes”. Essa crítica direta ao desperdício de recursos públicos para financiar pesquisas superficiais e inúteis soa muito atual em um Brasil.

Regulamentação e ambientalismo

Reagan denunciou ainda o excessivo poder das agências reguladoras federais. Na época, o próprio Escritório de Administração e Orçamento dos EUA sequer conseguia enumerar todas as agências existentes devido à grande proliferação burocrática. Cada uma dessas agências poderia emitir regulamentos com força de lei, com o agravante da presunção de culpa para o cidadão em caso de violação, diferente das leis tradicionais onde vigora a presunção de inocência. No Brasil, os cidadãos frequentemente enfrentam uma enorme burocracia regulatória, que foi incentivada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e que agora, após toda uma era PT, coloca o cidadão em posição de vulnerabilidade legal.

Reagan declarou-se um ambientalista moderado, criticando os extremos, afirmando que nem os que destroem a natureza indiscriminadamente, nem os radicais que bloqueiam completamente o desenvolvimento são razoáveis. Para Reagan, havia de se encontrar um equilíbrio, pois “as pessoas também fazem parte da ecologia”. Neste quesito, o político brasileiro é ainda mais tacanho. A qualquer grito na mídia ele já toma o lado dos grupos de pressão ambientalistas, e tudo é paralizado.

Equilíbrio fiscal

Sobre inflação e equilíbrio fiscal, Reagan enfatizou que “equilibrar o orçamento público é como proteger sua virtude: você precisa aprender a dizer ‘não’”. Defendeu também uma regra clara: cada congressista que propusesse um novo gasto deveria apresentar simultaneamente um imposto para financiá-lo, deixando transparente ao cidadão o custo real de cada programa público proposto. Essa ideia ainda está muito distante no Brasil, onde o político entra na Política para viver dela, portanto, quer agradar indiscriminadamente todos que batem a sua porta. É sua moeda de troca: “eu te ajuda, você me dá votos”. E isso não é apenas coisa do Centrão ou da Esquerda. Há muitos “socialistas de Direita”.

Por fim, Reagan alertou sobre a importância do envolvimento cívico ativo dos cidadãos. Ele mencionou que pesquisas mostravam que apenas 46% dos americanos conseguiam nomear seu representante no Congresso e, destes, poucos sabiam o que ele realmente fazia ou defendia. Essa falta de engajamento, segundo Reagan, permitia que interesses específicos dominassem as decisões públicas, enfraquecendo a democracia representativa — uma preocupação que ainda é muito válida no contexto brasileiro contemporâneo.

Ao revisitar essa entrevista histórica de Ronald Reagan com Johnny Carson, fica claro que muitas das questões levantadas pelo ex-presidente dos EUA na década de 1980 permanecem profundamente relevantes e mal resolvidas no Brasil atual. Reagan não apenas apontava os problemas com lucidez, mas oferecia soluções claras e práticas que poderiam, se adotadas hoje, transformar positivamente o cenário político e econômico brasileiro.

Ronald Reagan Interview on The Tonight Show Starring Johnny Carson – 01/03/1975 – Part 2

Polarização

Em sua conversa com Johnny Carson, Ronald Reagan também abordou a questão atualmente debatida aqui sobre a polarização. Nos Estados Unidos, nunca houve a viabilidade de um terceiro partido político forte. É Republicano ou Democrata. E Reagan demonstrou uma clara preferência pela polarização. Para ele, o sistema bipartidário já havia provado sua eficácia histórica, garantindo estabilidade e clareza nas opções políticas oferecidas ao eleitorado norte-americano. A mesma clareza que se percebe agora no Brasil, ainda que exista aqui o fenômeno do Centrão fisiológico, mas ele também está mais claramente exposto.

Reagan ponderou que, embora terceiros partidos possam parecer atraentes em momentos de insatisfação geral com os partidos tradicionais, eles dividem frequentemente o eleitorado de forma contraproducente. Ao fazer isso, acabam por beneficiar candidatos que não representam verdadeiramente as preferências majoritárias da população. Ele exemplificou esse risco histórico ao lembrar que a formação do Partido Republicano, frequentemente citada como um exemplo de sucesso de uma “terceira via”, na verdade, resultou do colapso do Partido Whig, configurando-se mais como uma realocação do sistema bipartidário existente do que como a criação genuína de uma terceira força política.

Ainda assim, Reagan reconheceu que existem momentos históricos nos quais uma realocação significativa dentro dos partidos é necessária, sugerindo que talvez fosse o momento de uma revisão profunda sobre quais grupos deveriam estar alinhados dentro das agremiações existentes. Essa posição é a que estamos vendo ocorrer agora no Brasil, com uma classificação melhor entre quem é Direita de verdade (menos estado e mais liberdade), quem é Esquerda (mais estado e controle da população) e quem é Centrão (quem der mais leva). A fragmentação do cenário político em múltiplos partidos, como víamos muito frequentemente no Brasil e ainda persistem hoje, dilui as posições e geram confusão ainda maior entre os eleitores.

A clareza de princípios e compromissos permite ao eleitor decidir com transparência sobre qual visão de futuro deseja para o país.


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