Como vencer uma eleição se o Governo Federal investe em propaganda de narrativas e assistencialismo?

Num cenário em que o governo combina propaganda maciça e assistencialismo estratégico, a disputa eleitoral muda de natureza. Este artigo examina como essa engrenagem influencia percepções e mostra por que compreender seus mecanismos é essencial para quem deseja enfrentar o jogo político atual no Brasil.

Num país em que o Estado concentra verbas recordes para comunicação institucional, impulsionamento digital, campanhas de convencimento e programas assistenciais cada vez mais amplos, a disputa eleitoral deixa de ser apenas uma competição de ideias para se tornar uma luta contra uma máquina que atua 24 horas por dia. O cenário atual combina três elementos que se reforçam mutuamente: o bombardeio de narrativas financiadas com dinheiro público, a construção de dependência econômica por meio de programas sociais transformados em moeda eleitoral, e a fragilidade cognitiva de uma população majoritariamente analfabeta funcional, facilmente capturada por mensagens simples, repetidas e emocionais.

O mise-en-scène está montado. Há quase R$ 1 bilhão destinado à propaganda governamental, espalhada em emissoras de grande audiência, portais, redes sociais e na máquina oficial de comunicação. Isso acontece ao mesmo tempo em que o Ministério da Educação não tem verba para suprir materiais didáticos, o INSS não consegue processar folhas de pagamento com regularidade e farmácias públicas sofrem com falta de remédios básicos, como anticoncepcionais. Mesmo assim, a verba para narrativas oficiais não falta.

O resultado desse desequilíbrio é uma população vulnerável — mais de 70% entre analfabetos e analfabetos funcionais — que recebe informação sem capacidade plena de interpretação. Para muitos, a verdade passa a ser aquilo que se repete com força suficiente na televisão e no celular. Ao mesmo tempo, programas como Bolsa Família e Pé-de-Meia formam uma teia de dependência que transforma a subsistência mínima em gratidão eleitoral. No caso do Bolsa Família, a lógica de cálculo da renda per capita cria incentivos perversos que estimulam o aumento do número de dependentes. No Pé-de-Meia, jovens começam a receber um valor que será sacado justamente quando conquistarem o título de eleitor — uma coincidência eleitoral que não pode ser ignorada.

A consequência mais profunda é demográfica e cognitiva. Bebês chegam ao mundo com apenas 23% do cérebro desenvolvido, o restante desse desenvolvimento depende diretamente de proteína — algo difícil de garantir quando a base da alimentação subsidiada é farinha e açúcar. Famílias pobres, iniciando a maternidade muitas vezes aos 16 anos, têm quatro filhos em média, enquanto famílias de classe média têm dois. Em duas gerações da classe média, já se formaram três gerações na base social, com o triplo de eleitores dependentes do Estado. A equação política é evidente: 12 eleitores que precisam do governo para sobreviver contra 4 que não precisam.

Esse é o palco. A narrativa está posicionada, a dependência está estruturada, a propaganda está financiada. Resta saber: como vencer uma eleição nesse contexto?

A resposta não se encontra em slogans, mas em estratégias de ruptura da lógica estabelecida.

A primeira estratégia é quebrar o monopólio da narrativa. Isso não significa competir com o Estado usando a mesma escala de investimento, mas ocupar espaços ignorados pelo governo: conscientização direta com idosos — cujo voto é facultativo, mas decisivo — e formação da juventude, que consome redes sociais, mas tem baixa compreensão crítica. Levar informação simples, objetiva e verificável para esses dois grupos produz mais impacto do que tentar converter eleitores altamente ideologizados.

A segunda estratégia é revelar a armadilha do assistencialismo. Explicar que Pé-de-Meia e Bolsa Família não são políticas de emancipação, mas mecanismos para garantir apenas uma refeição — enquanto a meritocracia, o estudo e o esforço pessoal podem garantir duas ou três. O eleitor vulnerável não muda de opinião com ataques ao programa que recebe, mas com a demonstração de que existe um caminho superior, que dá autonomia e dignidade, e não dependência.

A terceira estratégia é mobilizar o contingente que não vota. Cerca de 30% do eleitorado simplesmente não comparece. Recuperar uma fração desse grupo — especialmente idosos e trabalhadores desiludidos — altera imediatamente qualquer cenário eleitoral. O governo investe pesado em propaganda para reforçar sua base; a oposição precisa investir pesado em trazer de volta quem desistiu de participar.

A quarta estratégia é usar a realidade econômica e principalmente a realidade da área de segurança como ponto de virada (aliás, estamos num momento de quase retorno a 2018, quando a violência e o tema “bandido bom é bandido morto” influenciaram sobremaneira as eleições da vitória de Bolsonaro, como explico em O fenômeno Bolsonaro como ninguém (até agora) havia explicado. Quando a comida fica cara, quando a mesa fica vazia, quando a segurança pública entra em colapso, a propaganda perde força. As eleições que derrubaram governos populistas ao redor do mundo foram vencidas não por discursos ideológicos, mas pelo tripé concreto que afeta todas as famílias: segurança, comida e emprego.

A quinta estratégia é formar núcleos locais de esclarecimento, especialmente em escolas, igrejas, associações e comunidades. Explicar como funcionam os mecanismos de voto, como se manipulam narrativas, como programas sociais são usados eleitoralmente. Uma sociedade consciente não nasce da publicidade, mas da educação. E essa educação pode ser distribuída sem o aparato estatal, por multiplicação de pessoas engajadas.

Em resumo: vencer uma eleição contra uma máquina de propaganda e assistencialismo exige inteligência estratégica, foco na população vulnerável, valorização do esforço individual, mobilização dos desiludidos e confrontação direta com a realidade econômica. O caminho não é demonizar ou querer destruir programas sociais, mas demonstrar que eles não libertam — apenas mantêm a dependência. A vitória só acontece quando o eleitor percebe que há uma alternativa melhor do que viver do mínimo que o governo concede. É aí que nasce a virada política real.

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