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Economista Bruno Musa afirma que nova resolução do Banco Central não combate o crime e prepara terreno para restrições maiores.

O economista Bruno Musa criticou, em análise publicada em seu canal no YouTube, a Resolução 584 de 2026 do Banco Central, que obriga as corretoras de criptoativos a reter por 24 horas as operações com stablecoins acima de R$ 10 mil por dia destinadas ao exterior ou a carteiras de autocustódia. Segundo Musa, a medida não configura, por si só, um controle de capitais, mas funciona como um ensaio para verificar até onde o mercado e a população aceitam esse tipo de restrição. “Mais um sinal de controle de capitais no Brasil”, afirmou. “Ele nunca vem com o nome bonito.”

Pela regra, a responsabilidade pela análise de risco recai sobre as exchanges, que podem liberar a operação antes do prazo de 24 horas, mas assumem integralmente o risco dessa decisão. Na avaliação do analista, o desenho da norma tende a tornar a retenção a escolha padrão, já que nenhuma corretora terá incentivo para liberar antecipadamente um recurso pelo qual pode ser responsabilizada.

Musa sustenta que a resolução falha justamente no objetivo declarado. Ele cita posicionamento da ABCripto, associação que representa o setor no país, segundo o qual agentes ilícitos costumam evitar as exchanges reguladas e recorrem até dez vezes mais a redes de lavagem, serviços de mixing e pontes entre blockchains. “A retenção por prazo fixo não diferencia a operação ilícita da operação lícita, apenas atrasa as duas pontas”, explicou o economista.

Conforme o analista, quem precisa liquidar uma operação de imediato migrará para protocolos de finanças descentralizadas, ambientes sem identificação que não se comunicam com o Coaf. O resultado prático, argumenta, seria empurrar parte do fluxo para o mercado informal, penalizando sobretudo o investidor que opera dentro da lei.

Para sustentar a tese de escalada gradual, Musa recorre ao histórico brasileiro. Lembrou a CPMF, criada em 1997 com alíquota de 0,2% para financiar a saúde e que vigorou até 2007, chegando a 0,38%. Citou ainda a elevação do IOF em 1999, durante a maxidesvalorização do real, e a alíquota de 2% sobre capital externo em 2009, posteriormente ampliada para 6%. Em 2015, houve a tentativa de recriar a contribuição sob o nome de CSS. “Não há nada mais permanente do que um imposto temporário”, resumiu.

O economista mencionou também declaração recente de Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras entre 2005 e 2012 e hoje ligado à articulação eleitoral do governo, que voltou a tratar publicamente da hipótese de controle de capitais. No plano internacional, o analista relacionou os casos da Argentina, entre 2001 e 2015; da Grécia, que limitou saques a 60 euros diários em 2015; do Chipre, que em 2013 restringiu saques e chegou a confiscar parte dos depósitos acima de 100 mil euros; da Islândia, entre 2008 e 2017; e da Índia, em 2016.

O peso do mercado de stablecoins no país explica, para Musa, o interesse regulatório. Dados da Chainalysis relativos a 2025 colocam o Brasil na quinta posição mundial em adoção de criptoativos entre 151 países, atrás de Índia, Estados Unidos, Paquistão e Vietnã, e na liderança da América Latina. As stablecoins responderam por cerca de 80% do volume mensal declarado de criptoativos em 2025, contra apenas 3,5% em 2019.

O montante em USDT mantido por brasileiros alcança R$ 327 bilhões, patamar comparável ao das reservas internacionais do país, e representa 65% do total declarado. Somada à USDC, com R$ 33 bilhões, a fatia chega a 71%. Em 2025, os brasileiros declararam R$ 505 bilhões em criptoativos, avanço de 21,5% sobre 2024 e cinco vezes o valor de 2020. Entre agosto de 2019 e dezembro de 2025 foram registradas 185 milhões de operações de compra e venda.

O economista relaciona esse movimento à corrosão da moeda nacional, lembrando que o poder de compra de R$ 100 em 1994 equivale hoje a cerca de R$ 11. Pesquisa da Castle Island Ventures e da Brevan Howard, por ele citada, indica que 47% dos usuários de criptoativos em países como Brasil, Índia, Indonésia, Nigéria e Turquia recorrem às stablecoins principalmente para acessar o dólar americano. “O brasileiro não foi para stablecoin porque gosta de tecnologia, foi para fugir do real”, declarou. “É o mercado respondendo à incompetência fiscal do próprio Estado.”

Na leitura de Musa, a motivação real é orçamentária. Ele argumenta que o crescimento dos gastos públicos acima da receita torna cada vez mais difícil a rolagem da dívida, o que aumenta o interesse do governo em manter capital dentro do país, seja por meio do IOF, seja por retenções ou por outros instrumentos. O analista recorreu à curva de Laffer para afirmar que, a partir de determinado ponto, elevar alíquotas reduz a arrecadação, porque contribuintes deixam de pagar ou encerram suas empresas.

O economista citou ainda reportagem publicada pelo Estadão segundo a qual a renda disponível do brasileiro caiu ao menor nível da série histórica. “O governo criou o problema e agora ele cria uma solução que é vantajosa apenas a ele e prejudica a todos os brasileiros”, afirmou.

Ao encerrar, Musa ponderou que não vê como provável a repetição de um episódio como o confisco da poupança no governo Collor e ressaltou que o país segue apresentando oportunidades de investimento. Defendeu, contudo, a diversificação internacional como forma de proteção patrimonial. “Aproveitemos as oportunidades aqui, mas não deixemos de acessar o mercado lá fora”, declarou, acrescentando que a disputa eleitoral deste ano pode ser “a eleição mais importante nos últimos 40 anos”.


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