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Em A Traição dos Artistas, Cláudio Toldo parte da Tropicália e da resistência à censura para discutir a adesão de artistas à política partidária e a defesa seletiva da liberdade de expressão

Durante boa parte do século XX, o artista ocupou no imaginário brasileiro o lugar do provocador, do dissidente e daquele que reivindicava o direito de incomodar inclusive seu próprio campo político. O que aconteceu com esse papel nas últimas décadas? Essa é a pergunta que conduz A Traição dos Artistas — Arte, política e liberdade no Brasil contemporâneo, novo livro de Cláudio Toldo, lançado pela Convivivm Editorial.

O ponto de partida é La Trahison des Clercs (1927), do filósofo francês Julien Benda. Há quase um século, Benda examinou o momento em que intelectuais abandonaram valores que pretendiam universais para assumir as paixões e os interesses das facções políticas. Toldo transporta a questão para o ambiente cultural brasileiro e propõe uma distinção importante: o problema não está em um artista ser de esquerda ou de direita, apoiar Lula ou Bolsonaro, participar de manifestações ou declarar seu voto. A questão aparece quando princípios antes defendidos como universais passam a valer de maneira diferente conforme a identidade política de quem deles necessita.

O livro retorna aos anos 1960 para recuperar um período em que essa contradição podia ser observada em sentido inverso. Caetano Veloso enfrentou uma plateia politicamente engajada ao denunciar quem pretendia “policiar a música brasileira”. Tropicalistas romperam simultaneamente com convenções estéticas, nacionalismos culturais e cobranças ideológicas da esquerda. Glauber Rocha, Hélio Oiticica, José Celso Martinez Corrêa, Gilberto Gil, Torquato Neto, Os Mutantes e outros personagens daquele período aparecem como parte de uma geração para a qual experimentar artisticamente também significava recusar o enquadramento.

Pouco depois, a censura do regime militar tornou a questão da liberdade muito menos abstrata. Músicas, filmes, peças e textos passaram pelo controle do Estado, e artistas brasileiros tiveram obras proibidas ou mutiladas. Essa experiência ajudou a estabelecer a liberdade de criação como um dos valores associados à própria identidade do meio artístico.

É justamente essa herança que A Traição dos Artistas coloca diante do presente.

Ao avançar para o Brasil contemporâneo, Toldo analisa a crescente aproximação entre produção cultural, militância e identidade política. Entram na discussão temas como hegemonia cultural, patrulhamento ideológico, imprensa, redes sociais, decisões judiciais, desinformação e as novas justificativas empregadas para restringir manifestações consideradas perigosas para a democracia.

O autor evita, porém, transformar preferência eleitoral em prova daquilo que chama de “traição”. “Caetano Veloso não traiu coisa alguma por votar em Lula, assim como Chico Buarque não traiu sua obra por subir num palanque petista”, escreve. O critério adotado é outro: verificar se a liberdade reivindicada pelo artista quando ele próprio ou seu grupo estavam sob pressão continua sendo reconhecida quando beneficia adversários.

É nesse ponto que o título do livro ganha seu sentido. A “traição” não seria a passagem de um artista para determinado lado político, mas a mudança da regra pela qual ele julgava o poder e a liberdade.

Além dos nomes ligados à geração dos anos 1960, o livro acompanha manifestações de artistas e personalidades culturais das gerações seguintes para mostrar como a participação política deixou de ser apenas uma posição individual e passou, em determinados ambientes, a funcionar também como sinal de pertencimento.

Ao longo dos capítulos, A Traição dos Artistas acaba propondo uma pergunta que ultrapassa o meio cultural: é possível defender a liberdade de expressão apenas para ideias consideradas corretas? Se o direito de falar depende previamente da avaliação sobre quem fala, qual é o espaço reservado à dissidência?

Para Toldo, a discussão importa justamente porque artistas historicamente ajudaram a ampliar esse espaço no Brasil. O confronto entre essa tradição e as posições assumidas no presente constitui o eixo central do livro.

Sobre o autor

Cláudio Toldo é jornalista, editor e diretor da Convivivm Editorial. Graduado em Comunicação Social — habilitação Jornalismo — pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pós-graduado pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), lecionou em duas universidades do Sul de Santa Catarina. Atuou em jornalismo impresso, planejamento gráfico e editorial, jornalismo educacional e empresarial, assessoria de imprensa, planejamento em comunicação e webjornalismo.

Livro: A Traição dos Artistas
Subtítulo: Arte, política e liberdade no Brasil contemporâneo
Autor: Cláudio Toldo
Editora: Convivivm Editorial
Gênero: ensaio / política / cultura / liberdade de expressão


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