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O tratamento dispensado a Lula e a Flávio Bolsonaro expõe a cobertura débil que distribui suspeitas e indulgências conforme o interesse político

A democracia de um lado só aparece na diferença entre as perguntas dirigidas a Lula e as cobranças feitas a Flávio Bolsonaro. Na cobertura eleitoral deste ano, como de resto as de sempre, as suspeitas contra o candidato da oposição ganham manchetes, enquanto as iniciativas do governo encontram espaço para justificativas. A imprensa participa desse desequilíbrio quando transforma acusações de um campo político em pauta permanente e deixa de aplicar ao outro o mesmo rigor.

Já tratei disso exclusivamente à classe artística no livro “A Traição dos Artistas”, mas para a imprensa, universo que habito desde o ano de 1989, quando ingressei na UFSC, é tanto material disponível para reflexões que fazer uma seleção é extremamente complicado e razão para exposições constantes.

O episódio da Meta se soma à acusação de financiamento estrangeiro da eleição, envolvendo o vice-presidente americano JD Vance, e à suspeita publicada pela revista Piauí de que Flávio Bolsonaro seria sócio indireto da casa de apostas Best Bet, por meio de empresas ligadas ao advogado Willer Tomaz. Destas atuais denúncias, a suposta interferência da Meta na eleição é a que mais “cola” entre os jornalistas, justamente por ser a mais etérea e menos compreendida, ainda que a explicação da empresa — um problema técnico que teria atingido usuários no mundo inteiro — devesse bastar. A Meta é a mesma empresa que comprovadamente trabalhou com Alexandre de Moraes para censurar publicações de direita nas eleições de 2022. É a mesma empresa da qual o atual ministro da Economia de Lula, Dario Durigan, era CEO! Como agora, lá nos EUA, Mark Zuckerberg passou a ser amigo de Donald Trump, ela, sem demitir nenhum dos funcionários esquerdistas do Brasil, passou a favorecer a dita “extrema-direita” brasileira.

O golpe da “direita” agora será o “algorítimo”. A repercussão à hipótese de interferência toma conta do noticiário à medida que uma vitória de Flávio Bolsonaro neste domingo fica cada vez mais evidente. A presença de Gilmar Mendes no debate acrescenta o peso de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Quanto maior for a autoridade dos envolvidos, maior deveria ser a exigência de demonstração do que efetivamente aconteceu. A repetição de uma acusação por jornais, políticos e integrantes do Judiciário não resolve a falta de provas e o desconhecimento de como o algorítimo funciona, selecionando apenas o que o usuário gosta mais de ver. Tão simples quanto um 2 + 2 = 4.

A desigualdade de tratamento aparece na cobertura dos benefícios concedidos por Lula às vésperas da eleição. Entre a proximidade do primeiro turno e a do segundo, o governo Lula entregou 23 medidas que, segundo levantamento do Estadão, somam aproximadamente R$ 350 bilhões. Enquanto isso, a Folha de S.Paulo destacou com alarme a promessa de Flávio Bolsonaro de retomar o benefício fiscal para o setor de eventos. Os bilhões distribuídos pelo governo durante a disputa eleitoral receberam menos cobrança do que uma única proposta do candidato da oposição!

A Folha de S.Paulo fez manchete sobre essa promessa e pelas informações relativas ao escritório de advocacia de Flávio: R$ 13,7 milhões em notas fiscais ao longo de três anos. Também aparece a movimentação de R$ 5 bilhões, em um ano, por um advogado amigo do candidato. São informações que precisam vir acompanhadas de contexto, documentos e explicação sobre sua relevância para a eleição. A proximidade pessoal, por si só, não demonstra a existência de um ilícito. Mas veja só se o mesmo critério alcançasse os irmãos Batista, a JBS e as relações com Lula. As cifras de Flávio viram cisco no meio de um valor de US$ 91,17 bilhões, convertido em mais de R$ 480 bilhões, obtido em uma simples consulta ao Grok, dos irmãos Batista. Caberia à imprensa uma apuração com exatidão desses valores e examinar os financiamentos do BNDES e a expansão empresarial da dupla amiga de Lula se o jornalismo fosse uma ferramenta da verdade e não do casuísmo. Usar cifras para cercar um candidato de suspeitas e dispensar perguntas sobre os aliados de outro só mostra o comprometimento da credibilidade na cobertura eleitoral (e política em geral).

A cobrança sobre o compromisso democrático também precisa alcançar ambos os concorrentes. A Folha, que questiona o comportamento democrático de Flávio por ilações, não tem o mesmo interesse pelas falas de Lula.

É nessa distribuição desigual de cobranças que a imprensa oferece proteção ao poder vigente. O público menos interessado em política passa a conviver com uma escala de gravidade definida pelos jornalistas. A advertência atribuída a Joseph Pulitzer permanece inteira: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta fará um público tão vil como ela mesma”. Obviamente é por isso que temos hoje pelo menos 46% da população eleitoral votando em um político com condenação em três instâncias por corrupção. Já foram 50,9%.

O efeito dessa prática cínica e mercenária da imprensa ultrapassa a eleição e está criando uma audiência cada vez mais idiota e corrupta. Ainda que as redes sociais, pela força do algorítimo que dá ao público o que ele acredita e gosta, impeça que essa força seja maior (o que nos dá certa esperança), é necessária a exposição contínua desta conduta para se evitar um mal maior, como o de convivermos por mais 20 anos com o petismo.

A imprensa dá voz ao mal quando empresta sua autoridade (graças a Deus bastante enfraquecida) à perseguição seletiva, à suspeita sem demonstração e à desculpa permanente para os aliados do poder. A democracia de um lado só precisa ser combatida.


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