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Documentário mostra como o cinema e as novelas moldaram um Brasil à esquerda

Vídeo percorre obras de Nelson Pereira dos Santos a novelas da Globo e sustenta que a repetição de heróis pobres e vilões ricos formou o imaginário político do público

|Por Redação

Vídeo percorre obras de Nelson Pereira dos Santos a novelas da Globo e sustenta que a repetição de heróis pobres e vilões ricos formou o imaginário político do público

Odete Roitman, os sertanejos de Glauber Rocha e os trabalhadores de “Eles Não Usam Black-Tie” têm algo em comum na leitura proposta pelo documentário “Como o cinema nacional e as novelas destruíram a direita e construíram a esquerda na cabeça do brasileiro”, dirigido e roteirizado pelo jornalista Cláudio Toldo: todos integram uma tradição audiovisual que teria aproximado o brasileiro da esquerda e associado a direita à exploração. O argumento conduz um passeio de aproximadamente 43 minutos por filmes, novelas e minisséries, entre elogios a atores e ataques ao conteúdo político das produções.

O vídeo estreou em 20 de abril de 2025. Seu ponto de partida é a ideia de que o entretenimento participou ativamente da formação política dos espectadores, fazendo da identificação com personagens um caminho para a adesão a valores e discursos. A seleção percorre diferentes períodos do audiovisual brasileiro, mas situa nos anos 1950 uma mudança decisiva. “Rio, 40 Graus” e “Rio, Zona Norte”, de Nelson Pereira dos Santos, aparecem como marcos de uma produção que passaria a colocar a desigualdade e a exploração no centro das histórias.

Glauber Rocha ocupa lugar de destaque nessa interpretação. O documentário identifica em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Terra em Transe” e “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” uma combinação de invenção estética e discurso revolucionário. A narração reconhece a singularidade do cineasta, ao mesmo tempo que o apresenta como uma das principais forças de consolidação da esquerda no cinema.

Na televisão, o mecanismo teria encontrado outra escala. Segundo o vídeo, romances, conflitos familiares e personagens carismáticos permitiram incorporar mensagens políticas ao hábito diário de acompanhar novelas. “Roque Santeiro”, “Vale Tudo” e “O Rei do Gado” são examinadas sob essa perspectiva. O contraste entre a empresária Odete Roitman e a trabalhadora Raquel, em “Vale Tudo”, serve de exemplo à tese de que riqueza e corrupção apareceriam frequentemente de um lado, enquanto esforço e integridade ficariam do outro. Já a relação entre Bruno Mezenga e Luana, em “O Rei do Gado”, é interpretada como um veículo de aproximação do público com a causa dos sem-terra.

O documentário também dedica uma seção ao erotismo. Na leitura do narrador, a nudez funcionou tanto como chamariz comercial quanto como meio de atrair espectadores para histórias carregadas de mensagens políticas. Adaptações de Nelson Rodrigues e “Rio Babilônia”, de Neville d’Almeida, entram nessa discussão. E o tom está distante da discrição acadêmica. A exposição alterna contextualização, trechos de obras, ironias e comentários pessoais. Em determinado momento, o narrador inclui a própria trajetória no argumento, afirmando que também se identificou com a esquerda antes de deixar a universidade e ingressar no mercado de trabalho.

A abrangência do recorte mostra que produções de épocas, linguagens e ambições distintas são reunidas sob uma mesma chave explicativa. “A lista tem vários filmes que eu gosto, incluindo as poucas novelas que assisti da lista quando era pequeno. Quase todos os atores são elogiados de alguma maneira. Até a década de 1990, dos filmes citados, somente Carlota Joaquina foi mal feito. Os outros têm muito valor cinematográfico e com excelentes atuações. Meus preferidos são Lucio Flávio e Rio Babilônia. No entanto, conforme respondi em um comentário, o problema todo está na cartilha doutrinária que o ‘sistema socialista progressista’ impõe por trás das tramas. A tal luta de classe eterna. Para isso expliquei a um comentário que o vídeo é claro em enaltecer este vínculo “esquerdista-herói pobre” porque a literatura universal, ao contrário, é pródiga em por todos às vezes como heróis e às vezes como malvados! Na literatura esquerdista isto não existe. Desde a Grécia Antiga até o século XX, reis, príncipes e nobres são celebrados como grandes heróis. Aquiles era príncipe, Odisseu rei de Ítaca, e Perseu um semideus da realeza. Na Idade Média, o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda eram a elite de sua época, assim como El Cid, nobre cavaleiro espanhol. Shakespeare exaltou príncipes como Hamlet e Henrique V, enquanto no século XIX, figuras como D’Artagnan (aristocrata) e Edmond Dantès (que se torna conde) eram protagonistas nobres. Até no século XX, Aragorn em ‘O Senhor dos Anéis’ é um rei herdeiro. Heróis vêm de todas as classes — o que importa não é sua origem, mas seus feitos e caráter. A narrativa de que só o pobre é virtuoso é uma simplificação ideológica, não histórica”, explica Cláudio Toldo.


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